É melhor queimar incenso em casa, do que em um local distante.
Provérbio Chinês

domingo, 22 de dezembro de 2013

Era uma vez uma Nação Pós-Futurista

Há 500 anos atrás, era difícil imaginar, pelas suas condições atuais, que a Europa um dia se tornaria o centro do mundo, com a capacidade técnica, militar e econômica de subjugar a todos. Nessa época os impérios Chinês, Muscovita, Otomano e Mogul partilhavam a maior parte das riquezas do mundo, assim como as rotas de comércio, o que como todos sabem estimulou a busca de caminhos alternativos para as Índias.
Assim verdadeiros antros de atraso como a Inglaterra, EUA, Alemanha e Suécia, logo puderam dar seus passos e hoje se colocam em uma posição de superioridade tão enraizada em suas sociedades, que sua compreensão acerca do seu sucesso só pode ser explicada através de superioridade moral ou até mesmo genética.

Mas poderia acontecer isso novamente? Poderia o primeiro homem em outro sistema solar ser do Quênia, ou um Renascimento Árabe baseado em uma interpretação humanista do Alcorão dar origem a novas filosofias de vida que gerem um maior bem-estar à sociedade?

Para sermos mais realistas frente às infinitas possibilidades é preciso entender como gira a roda da história. Um ciclo bastante comum é aquele onde a sociedade dominante sucumbe por ser incapaz de se adaptar às mudanças ocorrendo em determinado momento histórico. Não que isto seja impossível, mas toda sociedade dominante é quase por definição, conservadora. Afinal, por que mexer em time que está ganhando? As regras do jogo na história, no entanto, mudam.

Esses momentos históricos de grande mudança que provocam alterações de dominância podem ser previstos ficando de olho nas novas gerações. O que está ocorrendo no mundo hoje em relação à sociedade jovem é algo bastante curioso e surpreendente: Em seu maior momento de influência cultural, os EUA estão na verdade perdendo influência econômica. Apesar de hoje a maior parte dos jovens do mundo falar inglês e poderem discutir facilmente entre continentes sobre os últimos episódios de The Big Bang Theory ou Game of Thrones - rejeitam a guerra ao terror e compram cada vez menos produtos norte-americanos. Essa relação de admiração e ódio só pode ser o que sentiam os súditos do império romano durante sua decadência.

Nada disso é novidade nos ciclos políticos, mas a onda que cresce no horizonte é algo muito mais apavorante do que o surgimento de um mundo multipolar: É um mundo cujo clima será profundamente afetado pelo efeito estufa antropogênico, assim como suas fronteiras as imigrações em massa colocarão especialmente os países do status quo em grande estresse. Ainda não aprendemos a tratar um ao outro como os iguais que somos, e logo surgirá uma entidade diferente, na forma da inteligência artificial igual ou até mesmo superior a nós em capacidade cognitiva - com a qual precisaremos fazer a escolha difícil de nos integrar ou não. Ou quem sabe uma Nações Unidas provida de maiores poderes políticos, em um mundo com plena globalização do mercado de trabalho e da economia. Quais seriam as consequênciasdisto?

No fim, surgirão novas estruturas sociais, políticas e econômicas para manejar a sociedade, e as culturas humanas (se no final dessas mudanças tal conceito ainda existir) que encontrarem as soluções corretas serão aquelas admiradas.

Em suma, estamos na beira da queda da Bastilha, mas, maravilhados com Versailles, ainda queremos a monarquia absolutista.

O Pífano Mágico

Me fascinou ir outro dia na Ópera de Leipzig outro dia para ver a Flauta Mágica de Mozart, que sempre tive vontade de assistir para ver é claro a Ária da Rainha da Noite e as palhaçadas do papageno - Mas ao parar para ler mais sobre o roteiro da peça (no wikipedia, como sempre), descobri que Mozart além de ser integrante da maçonaria, tinha feito esta obra inspirado nessa ordem, assim como no Iluminismo.
A Ópera conta a história de um jovem príncipe que parte para salvar a filha da Rainha da Noite, das garras do terrível Sarastro. O espectador observa no decorrer da trama no entanto, que os papéis estão trocados: A Rainha na verdade representa o Obscurantismo, filosofia na qual as massas precisam ser mantidas na ignorância para a obtenção de uma sociedade equilibrada. Enquanto Sarastro conduz o herói para uma vida guiada pela razão e liberdade de pensamento.

Enquanto encenações desta Ópera constumam manter essa alegoria subjetiva, buscando ao máximo a proximidade do que se montou na estréia em Viena no século XVIII, na Alemanha como sempre a turma quer inovar. No começo achava um absurdo, eu que nunca tinha visto Turandot naquele cenário de filme egípcio de Cecil B. DeMille, ver uma montagem moderna, deixando para todos bem claro, o que o autor da obra queria dizer com aquilo.

Com a Flauta Mágica não foi diferente - Sarastro era um Grão-Mestre de Maçonaria, e seu templo um observatório astronômico, repleto de compassos, e outros instrumentos da engenharia. Como meu colega Eudes andou encenando essa Ópera em Pernambuco este ano, pensei: Seria possível adaptar a cenografia à estética do folclore ou arquétipos do povo nordestino?

A resposta que me veio foi um sonoro não. Apesar de muitas figuras encaixarem-se perfeitamente, como um Mateus e Catirina para Papageno e Papagena, um príncipe e uma princesa também não seriam tão complicados, e certamente a figura da Rainha da Noite apareceria como aquela viúva beata reacionária, não existiria nada para Sarastro e sua trupe, já que os nordestinos nunca foram "Iluminados" - na verdade nenhum brasileiro, ou qualquer outro do vasto terceiro mundo.

Vivemos todos uma longa e sombria idade média desde o nosso descobrimento.