É melhor queimar incenso em casa, do que em um local distante.
Provérbio Chinês

domingo, 14 de julho de 2013

A vida nos climas temperados e o Mito da necessidade da adversidade para o progresso humano.


" Você sabia que a primeira Matrix foi projetada para ser o mundo humano perfeito? Onde ninguém sofria, onde todos seriam felizes. Foi um desastre. Nenhum aceitou o programa. Colheitas inteiras foram perdidas. Alguns acreditavam que nos faltava a linguagem de programação para descrever seu mundo perfeito. Mas eu acredito que, como espécie, os seres humanos definem sua relidade em termos de miséria e sofrimento. O mundo perfeito era um sonho do qual seus cérebros primitivos acordavam constantemente. É por isso que a Matrix foi redesenhada para isto: o auge de sua Civilização" - Agente Smith, A Matix

Encontrando o tal mundo ideal, não quiseram nem conseguiram os Eurásios estabelecerem colônias que replicavam o desenvolvimento humano no segundo mais velho continente. Como disse o Agente Smith nesta fantástica trilogia de Ficção Científica, os seres humanos parecem necessitar de dificuldades, desafios, situações climáticas adversas para prosperarem, se sentirem satisfeitos, e organizarem uma socidade que seja tanto capaz de se defender quanto cuidar de cada um de seus integrantes. Engraçado por isso como todas as principais religiões retirem o sofrimento dos "mundos ideais" prometidos após a morte aos seus bons fiéis.
Do ponto de vista comportamental e biológico, parece ser realmente o caso, que animais sociais e caçadores buscam atividades secundárias como brincadeiras tanto para o aprendizado das técnicas reais de sobrevivência, quanto por uma necessidade de alimentar a mente com problemas criados artificialmente. É certamente o caso de humanos, que para "passar o tempo" possuem uma necessidade quase fisiológica de quebra-cabeças dos mais simples, como caça-palavras, aos mais sofisticados como Starcraft e Call of Duty. Talvez o próprio desenvolvimento e popularidade dos mais diversos Esportes também têm como origem esse princípio, a profunda necessidade dos humanos de se provar, tanto a si mesmos quanto aos outros, e um prazer pela vida em hierarquia (que pode até explicar a falha implícita dos modelos mais extremos de comunismo).
Assim, para que viveria eu no dito paraíso religioso a eternidade, sem o fracasso, a tristeza, a dor - onde provavelmente a alegria iria definhando ao ponto de se tornar um prazer sem sal, uma vida morna e todos entrariam em um estado de apatia permanente. Por isso todo Paraíso acaba por se igualar ao fim a um Purgatório ao qual os bons, os maus e os feios estariam todos juntos. Neste aspecto a dor se apresenta como um sentimento muito mais autêntico - afinal, movimentos involuntários de fuga são sempre disparados por ameaças como fogo. Nunca vi uma mão se movendo sozinha pra pegar um sorvete, por exemplo. Por isso um amigo meu dizia "que mané tocar harpinha no céu, o negócio é ir pro inferno, tocar guitarra com o Diabo".
Afinal, o Homem encontrou o Éden e dele fez um lugar pior do que de onde veio. No início, no entanto, grandes Civilizações eram previstas tendo apenas como determinantes a presença de água e fertilidade do solo - a disputa por esses recursos por causa da agricultura ditava que estes locais seriam posse da sociedade mais forte da região. Hoje no entanto graças ao transporte não vemos mais grandes civilizações florescerem em regiões com grande abundância de recursos naturais, já que outras conseguem se manter pela venda de espelhos. Mas voltando ao Mediterrâneo e ao Crescente Fértil, vemos que quase todos os elementos tropicais se mostravam presentes, e nestes locais se encontrava o chamado mundo civilizado da época - ao Norte dos Alpes no entanto, vivia um mundo bárbaro, que muitos da época explicavam justo pela existência de um período de frio intenso e congelamento - condições nas quais um mundo civilizado não poderia esperar prosperar.
Essa inversão de valores se deu logo após a Reforma Protestante e o Renascimento, a quebra final com a última e maior das civilizações mediterrânicas, onde se deu o início da busca da identidade daquele povo chamado de bárbaros por milênios, e que mesmo hoje, rindo dos palhaços no senado de Roma, da bancarrota de Atenas, e dos cacos do Egito, ainda de vez em quando precisa provar por que são melhores e se sentem sofisticados tomando vinho. No entanto, não precisam - estarão para a eternidade nos anais da história humana, com gigantescos feitos no ramo das idéias. Mas suas culturas não se prestam fácil ao mundo tropical.
O que em nós seres tropicais, está incutido destas culturas e que não nos presta para o nosso desenvolvimento? A idéia que a sobrevivência do homem está totalmente subordinada ao acúmulo de riquezas intermediárias - ou seja, o homem tropical vive facilmente do seu ambiente. Está convencido no entanto que precisa trabalhar para se alimentar. É claro que esta afirmação é um exagero, já que a especialização do trabalho existe e é desejada - mas não é possível comparar a facilidade de sobrevivência dos trópicos em comparação a regiões que congelam por meses.
A vida humana nos trópicos é uma quebra de paradoxo portanto, a desmistificação do trabalho como necessário e única realização, para um papel secundário, e este preenchido pela adversidade artificial, tão bem desenvolvido pelas sociedades Norte-Alpinas para superar o tédio do bem-estar social. A vida nos trópicos é uma volta ao Mediterrâneo, ao Oceano Índico, à África.

As adversidades são fundamentais para o desenvolvimento humano. Elas não precisam, no entanto, serem climáticas. Podem ser reais, como o subdesenvolvimento imposto, ou artificiais, como a própria Matrix.